Do Tiradentes à Odontogeriatra…Os +60 agradecem! - 22.01.17

Achados arqueológicos dão conta que, em 2750 a.C, já se identificavam procedimentos cirúrgicos em uma mandíbula. Na Idade Média, Guy de Chauliac, cirurgião-dentista em Avignon, na França, introduziu pela primeira vez o termo “dentista”, e adotou a ligadura intermaxilar nas fraturas; recomendava que fossem os “dentistas” a remover os dentes. A figura dos “tiradentes” continuou típica até 1700, trabalhando nas praças dos mercados, com uma multidão de curiosos e um público que não é difícil adivinhar, ou seja, do tipo animado, caloroso, e sonoro acompanhando. Desde lá, até os dias atuais, foram sendo criados e aperfeiçoados equipamentos, próteses dentárias, desenvolvidas as técnicas de atendimento, até as mais diversas especialidades que hoje temos ao nosso dispor. Para nos apresentar uma delas, a Odontogeriatria, entrevistamos a Dra. Rejane Pedro, Cirurgiã-dentista, Especialista, Mestre e Doutora em Gerontologia Biomédica pela PUCRS, possui Doutorado Sanduíche na Newcastle University, na Inglaterra. Atualmente é Pesquisadora no Projeto AMPAL (Atenção Multiprofissional ao Longevo) no Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS e realiza atendimento domiciliar (Home Care) e hospitalar odontológico para pessoas acima dos 60 anos ou com alguma restrição e ao leito.

 

1)      O que a Odontologia, sua área original de atuação, tem a ver com a Geriatria e Gerontologia, áreas nas quais é especialista? Onde elas se “cruzam”? O “cruzamento” dessas áreas (Gerontologia, Geriatria com a Odontologia) ainda não é muito comum aqui no Brasil, não é? Onde, no mundo, está mais desenvolvido?

Importante antes de responder a essa pergunta é  diferenciar os conceitos desses dois termos: Geriatria, Gerontologia e Odontogeriatria.

A Geriatria é o ramo da medicina que foca o estudo, a prevenção e o tratamento de doenças e da incapacidade em idades avançadas. O termo deve ser distinto de Gerontologia, que é o estudo do envelhecimento em si. Os profissionais da Gerontologia tem formação diversificada e interagem entre si e com os médicos geriatras.  E a Odontogeriatria é a  especialidade da odontologia que enfatiza o cuidado com a saúde oral da população idosa, especificamente participando da promoção do envelhecimento saudável, através de procedimentos preventivos, curativos e paliativos.

A Odontogeriatria é uma nova área da Odontologia no Brasil, oficializada como Especialidade desde 2001, mas que existe na Europa e Estados Unidos há mais de cinco décadas.  Os avanços sobre a longevidade são mais estudados nos países europeus como Finlândia, Japão e Noruega por exemplo.

A Situação da cavidade oral atual no Brasil, conforme as pesquisas recentes, ainda resultam em índices muito altos de perda dental e uso de próteses dentárias. Isso vem contrário aos dados da  OMS – Organização Mundial de Saúde, indicando para as pessoas terem, pelo menos, 20 dentes naturais remanescentes em sua cavidade bucal.

Dra Rejane com um de seus pacientes longevos, com mais de 90 anos, sua esposa e seu neto, visitando-os em casa para aplicação de testes e avaliação do estado de saúde geral.

 

2)      Quando uma pessoa idosa deve buscar um profissional com a sua especialidade?

Hoje o conceito de pessoa idosa esta mudando, muitas pesquisas e a mídia apresentam frequentemente novidades sobre qualidade de vida, envelhecimento saudável e condutas para prevenção para ter um envelhecimento bem sucedido. Qualquer pessoa com 60 anos ou mais deve buscar um profissional qualificado quando necessita de um maior conforto psicológico e de confiança, muitos acreditam que torna o tratamento mais humanizado, visando um melhor caminho para o restabelecimento funcional do mesmo. O papel da odontologia para o idoso é o de manter os pacientes em condições de saúde bucal que não comprometam a alimentação normal nem tenham repercussões negativas sobre a saúde geral e sobre o estado psicológico do indivíduo. Uma boa saúde bucal contribui para o bem-estar físico, psíquico e social do idoso.

 

3)      No geral, a gente ouve do nosso dentista conselhos do tipo: passe o fio dental, escove os dentes após as refeições, use pasta e escova de dentes de boa qualidade e tome cuidado ao escovar os dentes para fazê-lo da maneira correta, que precisamos fazer revisões anuais, pelo menos. Com relação à pessoa idosa, existem cuidados específicos com relação a sua saúde bucal? Quais são eles?

Os cuidados devem sempre serem orientados por um cirurgião-dentista capacitado.  O cuidar da pessoa idosa é formado por uma tríade: idoso e família, grupo de apoio e profissional da atenção em saúde, os quais devem estar sincronizados para se obter um resultado satisfatório no tratamento. O  profissional que trabalha com pessoas idosas deve ser diferenciado, principalmente no que se refere sobre o manejo do paciente, interação multiprofissional que atua junto ao idoso (médico, fisioterapeuta, nutricionista, fonoaudiólogo, etc.), interdisciplinando com outras áreas e sempre conversando sobre o plano de tratamento a ser seguido para cada paciente.  Muitas ofertas de tratamento são sugeridas, porem, cada caso deve ser estudado individualmente, com uma ampla avaliação clínica, visual e radiográfica.  A partir desses exames , da anamnese e uma conversa com o idoso e a família;  planejar o caso.  Quanto as revisões, claro que para o idoso a indicação seria uma visita periódica a cada quatro meses para manutenção e acompanhamento.

Na foto, Dra Rejane Pedro, à esquerda, com colega e a paciente Terezinha de quase 60 anos, surda, muda e cega, atendida em sua casa há mais de cinco anos. Inclusive tendo realizado cirurgia de lesão oral no domicílio.

4)      Um dos aspectos interessantes da sua atuação profissional é que você presta atendimento na casa de seus pacientes. Como isso é possível, já que, normalmente, os equipamentos odontológicos são enormes e pesados? Esse tipo de atendimento afeta a higiene no serviço a ser prestado? E, finalmente, pra qual tipo de paciente esse tipo de atendimento é indicado?

Atualmente existem diversas empresas no mercado oferecendo opções de consultório portátil, acessível para transporte e manuseio, alguns em formato de mala (fotos).

Quanto à questão da biossegurança, existem recipientes apropriados para cada caso, bem como esterilização física ou química dos materiais.

Poderão ​ser atendidas pessoas com limitações (físicas ou mentais), com problemas de deslocamentos e de acesso aos serviços de saúde. As indicações podem ser pelos motivos mais variados:

​Pedido​ do paciente

Promoção do auto-cuidado

Treinamento do paciente ou cuidador frente às suas novas necessidades

Adaptação e maior autonomia do paciente e de seus familiares

Adequação e redução de custos sem perda de qualidade

Prevenção de complicações no domicílio

Exemplo de equipamento portátil de atendimento odontológico a domicilio.

 

Você ficou com alguma dúvida? Quer alguma informação adicional? Gostaria de sugerir algum tema para nossa próxima coluna? Então, entre em contato conosco pelo email falecom@ohanaconciergerie.com.br .